Artigo 2 de 3 — O Futuro da Energia
No primeiro artigo desta trilogia, partimos de uma provocação:
E se um dos maiores desafios energéticos dos próximos anos não for apenas produzir mais energia, mas aprender a administrar inteligentemente tudo aquilo que seremos capazes de produzir?
A resposta nos levou a uma transformação importante.
O sistema elétrico que conhecemos, historicamente organizado em torno da geração, transmissão, distribuição e consumo, começa a conviver com milhões de novos pontos de geração, armazenamento, consumo e informação.
Mas existe um passo seguinte nessa história.
E se a infraestrutura elétrica deixar de ser apenas uma rede que transporta energia e passar a ser também uma rede capaz de observar, comunicar, prever e reagir?
Talvez seja exatamente para lá que estejamos caminhando.
Uma rede que começa a enxergar
Imagine uma rede elétrica capaz de identificar, praticamente em tempo real, o que acontece em milhares ou milhões de pontos.
● Sensores acompanham equipamentos.
● Medidores inteligentes registram consumo e geração.
● Estações meteorológicas ajudam a antecipar a produção solar e eólica.
● Sistemas identificam oscilações e anomalias.
● Baterias informam sua disponibilidade.
● Indústrias podem adaptar parte de sua demanda.
● Equipamentos começam a produzir continuamente dados sobre seu próprio funcionamento.
Separadamente, cada uma dessas tecnologias já é relevante.
O que muda o jogo é quando elas começam a conversar entre si.
A eletricidade continua percorrendo fios, cabos, transformadores e linhas de transmissão. Mas, paralelamente, uma quantidade gigantesca de informações começa a percorrer redes de telecomunicações.
Foi por isso que, no primeiro artigo, propusemos uma ideia que considero central para compreender essa transformação:
= Transmitir dados poderá se tornar quase tão estratégico quanto transmitir elétrons.
Porque uma rede só poderá reagir rapidamente se conseguir enxergar rapidamente. E só conseguirá enxergar se estiver conectada.
Energia e telecomunicações começam a se tornar inseparáveis
Aqui aparece uma convergência particularmente interessante.
Durante muito tempo, energia e telecomunicações puderam ser vistas como grandes infraestruturas que evoluíam predominantemente em seus próprios universos.
➜ Uma transportava elétrons.
➜ A outra transportava informação.
Essa fronteira começa a desaparecer.
Redes privativas, fibra óptica, 5G e, futuramente, 6G, Internet das Coisas, computação em nuvem e processamento na borda passam a integrar a discussão sobre infraestrutura energética.
Não porque energia esteja se transformando em telecomunicação. Mas porque será cada vez mais difícil administrar energia sem comunicação.
E quando milhares ou milhões de equipamentos passam a comunicar seu estado praticamente em tempo real, surge algo ainda mais poderoso:
- Dados.
- Muitos dados.
Dados mostram. Inteligência antecipa.
Saber o que está acontecendo já representa uma enorme evolução. Mas antecipar o que poderá acontecer muda novamente a natureza do sistema.
É aí que a inteligência artificial entra nessa história.
✔ Algoritmos podem ajudar a prever demanda.
✔ Antecipar a geração solar e eólica.
✔ Identificar padrões de falha antes que um equipamento pare.
✔ Otimizar manutenção.
✔ Ajudar a definir quando armazenar ou liberar energia.
✔ Encontrar anomalias em redes cada vez mais complexas.
✔ Apoiar decisões sobre resposta da demanda.
✔ E processar uma quantidade de informações que seria simplesmente impossível administrar apenas pela capacidade humana.
✔ A Europa parece ter compreendido claramente essa mudança.
Em junho de 2026, a União Europeia publicou um roteiro estratégico específico para digitalização e inteligência artificial no setor energético. É interessante observar sua lógica.
Ela trabalha simultaneamente com duas perspectivas:
● IA para a energia.
E:
● energia para a IA.
A primeira procura utilizar inteligência artificial, dados e digitalização para tornar o sistema energético mais eficiente, flexível e resiliente.
A segunda enfrenta uma questão que começa a ganhar dimensões extraordinárias:
de onde virá a energia necessária para sustentar a própria expansão da inteligência artificial?
E aqui encontramos um dos grandes paradoxos desta transformação.
A inteligência que economiza energia também consome energia
Inteligência artificial parece, à primeira vista, algo quase imaterial. Um algoritmo. Uma resposta na tela. Um serviço digital.
Mas existe uma enorme infraestrutura física por trás dessa aparente imaterialidade.
● Data centers.
● Servidores.
● Processadores.
● Sistemas de refrigeração.
● Redes de comunicação.
● Instalações que precisam operar continuamente.
● E eletricidade. Muita eletricidade.
A Agência Internacional de Energia estima que o consumo global de eletricidade dos data centers poderá praticamente dobrar até 2030, aproximando-se de 950 TWh por ano.
Para colocar essa dimensão em perspectiva, isso representa mais do que o consumo anual de eletricidade de muitos países somados.
Nos Estados Unidos, o fenômeno é ainda mais impressionante.
A expansão dos data centers poderá responder por aproximadamente metade de todo o crescimento da demanda elétrica americana até 2030.
Pense por alguns segundos nesse número.
Metade do crescimento da demanda elétrica da maior economia do mundo poderá estar associada, essencialmente, à expansão de sua infraestrutura digital.
É como se o mundo virtual começasse a redesenhar a infraestrutura do mundo físico.
E existe outro problema: velocidade
Um data center pode ser projetado e colocado em operação em poucos anos.
Grandes linhas de transmissão, novas estruturas de geração e outras infraestruturas energéticas podem exigir muito mais tempo.
Surge então um desafio que não é apenas energético.
É também de sincronização.
Como fazer com que energia, transmissão, telecomunicações, infraestrutura urbana e capacidade computacional evoluam na velocidade exigida pela economia digital?
E há uma segunda característica importante.
Data centers não distribuem sua demanda uniformemente por um país. Eles se concentram em determinados territórios.
Portanto, a pergunta não é apenas:
“Teremos energia suficiente?”
Também precisamos perguntar:
“Teremos energia suficiente no lugar certo, no momento certo e com a infraestrutura necessária para entregá-la?”
Novamente, voltamos à palavra que apareceu no primeiro artigo:
Coordenação.
Talvez por isso empresas tão diferentes estejam cada vez mais sentadas à mesma mesa
Quando voltamos a mergulhar nesse universo por ocasião das conversas sobre o novo ciclo estratégico da UTC América Latina — UTCAL, algo que já conhecíamos passou a ganhar outro significado.
Em um mesmo ambiente convivem empresas ligadas a utilities, telecomunicações, conectividade, automação, infraestrutura digital e tecnologia.
➜ Cisco.
➜ Nokia.
➜ Ericsson.
➜ Huawei.
➜ Siemens.
➜ GE Vernova.
➜ Hitachi.
E outras organizações que participam desse ecossistema.
À primeira vista, poderíamos enxergar apenas uma associação que reúne fornecedores, operadores e empresas de diferentes segmentos.
Mas talvez exista ali uma fotografia muito mais interessante do futuro.
Esses mundos precisam conversar porque as infraestruturas que eles representam estão convergindo.
Energia precisa de telecomunicações.
Telecomunicações precisam de energia.
Ambas precisam de dados.
Dados precisam de capacidade computacional.
Capacidade computacional precisa de data centers.
Data centers precisam de cada vez mais energia.
E todo esse ecossistema precisará de inteligência para funcionar.
É um ciclo extraordinário de interdependência.
Mas também de vulnerabilidade.
Quanto mais inteligente a rede, mais importante será protegê-la
Existe um aspecto dessa transformação que não pode ser tratado como assunto secundário de tecnologia da informação.
➜ Cibersegurança.
Quanto mais equipamentos conectados, sensores, sistemas automatizados e decisões digitais incorporarmos à infraestrutura energética, maior será também a superfície que precisaremos proteger.
Se informações incorretas interferirem em decisões operacionais, o problema deixa de ser apenas digital.
Se um comando indevido puder alterar o comportamento de um equipamento, o problema deixa de ser apenas digital.
Se sistemas essenciais forem interrompidos por ataques, o problema deixa de ser apenas digital.
Cibersegurança passa a ser também segurança energética.
E, em uma sociedade cada vez mais dependente de eletricidade e conectividade, passa a ser segurança da própria infraestrutura econômica.
Não por acaso, a estratégia europeia para digitalização e inteligência artificial no setor energético coloca confiança, segurança cibernética e proteção da infraestrutura crítica entre seus temas transversais.
Quanto mais inteligente for a rede, mais resiliente ela também precisará ser.
Mas afinal, quando uma rede se torna inteligente?
Talvez essa tenha sido uma das perguntas que mais me provocaram enquanto aprofundava esta pesquisa.
Quando começamos a chamar uma rede de inteligente, estamos falando apenas de tecnologia? Não me parece.
Uma rede não se torna inteligente simplesmente porque instalamos sensores, conectividade ou algoritmos. Ela começa a se tornar inteligente quando consegue transformar dados em informação, informação em previsão e previsão em decisão.
É uma mudança muito maior.
Porque uma infraestrutura que observa, comunica, antecipa e reage já não pode ser pensada apenas como infraestrutura física.
Ela passa a ser:
infraestrutura + informação + inteligência.
E isso muda também a maneira como precisamos pensar organizações.
O desafio talvez não seja tecnológico
Depois de mais de quatro décadas acompanhando empresas e transformações organizacionais, uma coisa continua me chamando a atenção:
a tecnologia normalmente evolui mais rapidamente do que a capacidade das organizações de incorporá-la à estratégia.
Talvez esse seja também um dos grandes desafios da transformação energética que estamos vivendo.
✔ Sensores podem ser instalados.
✔ Redes podem ser conectadas.
✔ Algoritmos podem ser contratados.
✔ Baterias podem ser construídas.
✔ Data centers podem surgir.
Mas quem decide como tudo isso deverá funcionar em conjunto?
Quem define os padrões?
Quem compartilha os dados?
Quem responde pelos riscos?
Quem desenvolve as novas competências?
Quem escolhe as alianças necessárias?
Quem decide onde investir primeiro?
E talvez a pergunta mais importante:
como planejar uma organização para um futuro que está mudando mais rapidamente do que os próprios ciclos tradicionais de planejamento?
No primeiro artigo desta trilogia, falamos da passagem da potência para a inteligência.
Neste segundo, encontramos outra transformação:
para fazer a rede pensar, precisaremos conectar mundos que durante muito tempo evoluíram separadamente.
● Energia.
● Telecomunicações.
● Tecnologia.
● Dados.
● Inteligência artificial.
● Cibersegurança.
Mas conectar tecnologias talvez seja a parte mais fácil.
O verdadeiro desafio poderá ser conectar estratégias, organizações e pessoas.
E é justamente aí que começa nosso terceiro e último artigo.
No próximo artigo desta trilogia:
Como planejar quando o futuro chega antes do planejamento?
Se tecnologias, mercados, regulações e modelos de negócio estão mudando em velocidades diferentes, como construir estratégias que não estejam ultrapassadas antes mesmo de serem executadas?
Talvez o planejamento estratégico do futuro precise fazer algo que os modelos tradicionais nem sempre fizeram bem:
Preparar organizações não apenas para alcançar um futuro desejado, mas para aprender, decidir e se adaptar enquanto esse futuro está sendo construído.
O futuro da infraestrutura exige novas formas de planejar e decidir.
À medida que energia, telecomunicações e inteligência artificial se unem, os modelos tradicionais de gestão deixam de ser suficientes. A Ação Consultoria atua ao lado do seu Comitê Executivo para construir planejamentos flexíveis, mapear riscos de infraestrutura crítica e capacitar suas equipes para decidir em tempo real.
Alex Müller
Especialista em Negócios Ação Consultoria