Artigo 3 de 3 — O Futuro da Energia
Nos dois primeiros artigos desta trilogia, fizemos duas provocações.
Primeiro:
● o futuro da energia não está apenas na geração. Está na inteligência da rede.
Depois:
● o que acontece quando essa rede começa a enxergar, comunicar, prever e decidir?
Agora chegamos talvez à pergunta mais difícil.
Quem estará preparado para liderar essa transformação?
Porque, quanto mais aprofundamos esse tema, mais fica claro que o desafio que temos pela frente não é apenas tecnológico.
É estratégico.
O futuro já começou a entrar na rede
Enquanto escrevíamos esta trilogia, o Brasil deu novos passos importantes.
No dia 8 de setembro, a ANEEL abriu uma consulta pública para modernizar as regras de conexão de geração solar distribuída, sistemas de armazenamento, veículos elétricos e cargas capazes de ajustar seu consumo conforme as condições da rede.
O objetivo é preparar o sistema elétrico brasileiro para uma integração mais segura, eficiente e inteligente desses novos recursos.
Quase simultaneamente, entrou em consulta o Leilão de Transmissão nº 01/2027.
Entre seus doze lotes há algo inédito: pela primeira vez, o sistema brasileiro deverá contratar armazenamento por baterias dentro do próprio segmento de transmissão.
O empreendimento previsto para o Acre terá uma função bastante concreta: aumentar a confiabilidade do atendimento às regiões de Cruzeiro do Sul e Feijó.
Parece apenas uma decisão técnica.
Mas representa uma mudança conceitual importante. A bateria começa a deixar de ser somente um equipamento complementar à geração. Ela começa a se tornar infraestrutura de rede.
A transição está deixando os PowerPoints. Está entrando na regulação, nos contratos e nos investimentos.
Ao mesmo tempo, o consumidor também está mudando.
O Brasil deverá experimentar um crescimento importante do consumo de eletricidade nos próximos anos. Mas talvez o aspecto mais interessante não seja apenas quanto consumiremos. É quem consumirá, quando consumirá e de que maneira consumirá.
Data centers, inteligência artificial, eletromobilidade, hidrogênio, novas indústrias e processos cada vez mais eletrificados começam a modificar o perfil da demanda.
Não estamos falando simplesmente de mais aparelhos ligados à tomada.
Estamos falando do surgimento de cargas gigantescas, concentradas, digitais e economicamente estratégicas.
E isso não é exclusividade brasileira.
Nos Estados Unidos, os data centers já ocupam posição central nas projeções de crescimento da demanda elétrica.
Há um paradoxo fascinante nisso.
A inteligência artificial poderá ajudar a prever falhas, otimizar redes, administrar demanda, melhorar manutenção e planejar investimentos. Mas a infraestrutura necessária para sustentar essa mesma inteligência artificial também será uma enorme consumidora de eletricidade.
A tecnologia que ajudará a resolver parte do problema também ajudará a aumentá-lo. E a velocidade das coisas começa a se tornar um problema estratégico. Talvez este seja um dos aspectos menos discutidos dessa transformação.
Um data center pode ser concebido e implantado muito mais rapidamente do que novas linhas de transmissão e grandes reforços de infraestrutura elétrica.
Uma tecnologia pode amadurecer durante o próprio ciclo de planejamento de uma empresa.
Novos modelos de negócio podem surgir antes que a regulação esteja completamente preparada para eles.
E ativos elétricos construídos hoje continuarão operando durante décadas.
Temos, portanto, duas velocidades convivendo.
➜ A velocidade digital.
➜ E a velocidade da infraestrutura.
Conciliar as duas talvez seja um dos grandes desafios estratégicos da próxima década.
Porque o futuro energético começará a ser determinado não apenas pela disponibilidade de tecnologia ou de capital. Será determinado também pela capacidade de antecipar decisões.
Planejar quando o futuro muda antes do plano.
Durante muitos anos, planejamento estratégico foi quase sinônimo de construir uma visão de futuro relativamente estável e traçar um caminho para alcançá-la.
Esse mundo está ficando mais difícil.
Como planejar quando uma tecnologia amadurece durante o próprio ciclo estratégico?
Como decidir investimentos com vida útil de vinte ou trinta anos em ambientes tecnológicos e regulatórios que podem mudar muito mais rapidamente?
Como desenvolver competências para atividades que talvez ainda nem estejam claramente definidas?
Como decidir entre construir, contratar, compartilhar ou formar alianças?
Como proteger infraestruturas críticas que estão se tornando simultaneamente físicas e digitais?
E como fazer tudo isso sem perder confiabilidade, segurança e capacidade de atendimento?
Talvez o próprio conceito de planejamento estratégico precise evoluir junto com o setor.
Planejar não será prever exatamente qual futuro acontecerá.
Será preparar a organização para atuar competentemente diante de diferentes futuros possíveis.
A tecnologia avança. Mas alguém ainda precisa escolher.
Nos Estados Unidos, inteligência artificial já está sendo aplicada ao planejamento de sistemas elétricos para permitir que utilities avaliem volumes de cenários antes impensáveis.
É impressionante.
Mas existe algo que nenhum algoritmo fará sozinho. Escolher qual caminho seguir.
✔ Algoritmos podem simular.
✔ Dados podem mostrar tendências.
✔ IA pode identificar riscos.
✔ Sensores podem informar o que está acontecendo.
✔ Baterias podem entregar flexibilidade.
✔ Telecomunicações podem conectar todo o sistema.
Mas continuará cabendo às organizações decidir:
● onde investir;
● com quem se associar;
● quais riscos assumir;
● que competências desenvolver;
● que papel ocupar no novo ecossistema.
É exatamente aí que tecnologia se encontra com estratégia.
Talvez a maior mudança seja nas fronteiras
Ao longo desta trilogia falamos repetidamente de energia, telecomunicações, dados, inteligência artificial, armazenamento e cibersegurança.
Mas talvez, daqui a alguns anos, essa enumeração pareça estranha.
Porque essas fronteiras estão começando a desaparecer.
Uma rede elétrica que precisa comunicar milhões de dados em tempo real também é uma rede de telecomunicações.
Uma infraestrutura digital que não pode parar também é infraestrutura crítica.
Um data center é tecnologia, mas é também uma grande carga elétrica.
Uma bateria é armazenamento, mas pode também ser transmissão, flexibilidade ou serviço sistêmico.
Um veículo elétrico é transporte, consumo e, potencialmente, armazenamento.
Os setores que aprendemos a enxergar separadamente começam a formar um único ecossistema.
E isso exigirá um novo tipo de liderança.
Não necessariamente aquela que conhece profundamente todas as tecnologias.
Mas aquela capaz de conectar conhecimentos diferentes, fazer boas perguntas e tomar decisões em ambientes onde ninguém possui todas as respostas.
Não é apenas uma percepção brasileira
Ao pesquisarmos como organizações semelhantes estão se preparando para esse futuro em outras partes do mundo, encontramos uma coincidência importante.
Nos Estados Unidos, a Utilities Technology Council— UTC, organização com quase oito décadas de atuação junto às utilities, colocou em seu próprio planejamento estratégico várias das transformações que discutimos ao longo desta trilogia.
Entre elas estão o avanço acelerado das tecnologias, o impacto da inteligência artificial sobre os sistemas de informação e comunicação das utilities, as ameaças cibernéticas, a descentralização da geração e da distribuição de energia, mudanças regulatórias, transformações na força de trabalho e novas expectativas sobre a prestação dos serviços essenciais.
Há, porém, uma conclusão particularmente significativa em seu posicionamento:
a tecnologia será cada vez mais um diferenciador e um viabilizador da transformação das utilities.
Mas a própria estratégia da UTC mostra que tecnologia, isoladamente, não basta.
Educação e informação, colaboração, representação institucional, serviços e soluções fazem parte da resposta.
E há outro aspecto especialmente interessante para nós na América Latina:
➜ a construção dessa agenda está se tornando internacional.
UTC, EUTC e UTCAL fazem parte de um ecossistema que permite compartilhar experiências, tecnologias, desafios regulatórios e aprendizados entre mercados que estão enfrentando problemas semelhantes em velocidades diferentes.
Isso cria uma oportunidade importante.
Não apenas acompanhar tendências internacionais. Aprender com aquilo que outros mercados já estão vivendo antes que os mesmos desafios cheguem com toda força até nós.
Telecomunicações deixam de ser suporte e passam a ser infraestrutura crítica
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para o universo da UTC América Latina (UTCAL).
Quanto mais distribuída e automatizada se torna a rede elétrica, maior sua dependência de comunicação.
● Milhões de equipamentos precisam informar seu estado.
● Sensores precisam transmitir dados.
● Sistemas precisam conversar.
● Comandos precisam chegar com segurança.
● Falhas precisam ser detectadas rapidamente.
● E decisões precisam ser tomadas em intervalos cada vez menores.
Nos Estados Unidos, a UTC vem defendendo há anos o acesso das utilities a espectro de radiofrequência adequado para suas comunicações críticas.
A discussão envolve redes privadas, automação da distribuição, SCADA, infraestrutura avançada de medição e integração de recursos energéticos distribuídos.
Isso muda a natureza da pergunta.
Não se trata mais apenas de:
“Qual tecnologia de telecomunicação uma utility utilizará?”
A pergunta começa a ser:
“Até que ponto a própria infraestrutura de telecomunicações deverá se tornar um ativo estratégico da utility?”
E essa discussão já está acontecendo no Brasil.
Basta olhar para a agenda da própria UTCAL
Nos dias 23 e 24 de setembro, a UTCAL realizará em Florianópolis seu Seminário de Transformação Digital nas Utilities.
A programação talvez seja uma das melhores fotografias do momento que estamos vivendo.
Estarão na mesma agenda:
➜ inteligência artificial;
➜ redes privadas LTE e 5G;
➜ cibersegurança OT;
➜ interoperabilidade;
➜ governança de dados;
➜ armazenamento;
➜ digital twins;
➜ modernização tarifária;
➜ infraestrutura óptica;
➜ e remuneração regulatória dos investimentos digitais.
Há inclusive um debate especialmente interessante:
o atual modelo de remuneração regulatória está preparado para reconhecer investimentos em telecomunicações, cibersegurança, automação, inteligência artificial e outros ativos digitais necessários às redes do futuro?
Essa pergunta diz muito sobre a transformação em curso.
Porque quando precisamos discutir se um investimento digital deve fazer parte da base de ativos remunerada de uma concessionária, significa que tecnologia já deixou de ser apenas uma ferramenta administrativa.
Ela está se tornando parte da infraestrutura que permite prestar o próprio serviço público.
Foi exatamente daqui que nasceu esta trilogia
No primeiro artigo, contei que voltamos a mergulhar nesse tema depois de um novo contato com a UTC América Latina — UTCAL.
Há dois anos, tivemos na Ação Consultoria Empresarial e de Negócios a oportunidade de conduzir e mediar a construção de seu ciclo de Planejamento Estratégico 2025–2026.
Naquele momento, várias das questões discutidas nesses três artigos ainda apareciam principalmente como tendências.
Agora estão entrando na operação, na regulação, nos investimentos e nos modelos de negócio.
E hoje posso compartilhar algo que torna o encerramento desta trilogia ainda mais significativo para nós:
a Ação Consultoria foi novamente escolhida para conduzir e mediar a construção do Planejamento Estratégico 2027–2028 da UTC América Latina.
Recebemos essa renovação da confiança com enorme satisfação. Mas, principalmente, com enorme responsabilidade.
Porque a UTC América Latina (UTCAL) ocupa uma posição particularmente interessante nessa transformação.
Ela está exatamente na interseção entre utilities, telecomunicações e tecnologia e, ao mesmo tempo, integra um ecossistema internacional no qual experiências da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa podem dialogar.
Talvez exista aí uma oportunidade estratégica ainda maior: não apenas acompanhar tendências globais, mas ajudar a construir uma agenda latino-americana conectada a elas.
O verdadeiro desafio começa agora
Quando estivermos novamente reunidos para discutir o futuro da UTCAL, várias das perguntas desta trilogia provavelmente estarão sobre a mesa.
✔ Como preparar as utilities para uma rede cada vez mais distribuída?
✔ Que papel as telecomunicações ocuparão quando conectividade se tornar condição para operação do sistema?
✔ Como inteligência artificial e dados alterarão decisões?
✔ Como garantir cibersegurança em um ambiente cada vez mais conectado?
✔ Até que ponto redes privadas de telecomunicações se tornarão ativos estratégicos das utilities?
✔ Como o ambiente regulatório deverá reconhecer os investimentos digitais necessários à modernização?
✔ Que alianças serão necessárias?
✔ Que competências precisarão ser desenvolvidas?
✔ Como podemos aprender mais rapidamente com aquilo que UTC e EUTC já estão experimentando?
E, principalmente: que papel a UTCAL quer ocupar nesse futuro?
Talvez essa última seja a pergunta mais estratégica de todas.
Porque o futuro da energia não será construído apenas por quem produz eletricidade.
Será construído também por quem conseguir conectar geração, consumidores, telecomunicações, dados, tecnologia, regulação, segurança e estratégia.
No primeiro artigo desta série, perguntamos se o grande desafio seria produzir mais energia ou aprender a coordená-la.
No segundo, imaginamos uma rede começando a pensar.
E neste terceiro chegamos a uma conclusão talvez menos tecnológica, mas muito mais importante: por mais inteligente que a rede se torne, alguém ainda precisará decidir para onde queremos ir.
Esse é um trabalho de liderança.
Esse é um trabalho de estratégia.
E talvez seja exatamente por isso que, em um mundo onde o futuro parece chegar cada vez mais rápido,
PLANEJAR NUNCA TENHA SIDO TÃO NECESSÁRIO.
O futuro da infraestrutura crítica exige mais do que tecnologia: exige visão, adaptação e decisões corajosas. Na Ação Consultoria Empresarial e de Negócios, ajudamos organizações e entidades do setor a transformarem tendências regulatórias, digitais e operacionais em estratégias de crescimento sustentável.
Sua empresa está pronta para liderar essa transformação?
Alex Müller
Especialista em Negócios Ação Consultoria